Vegetarianismo: Razões Economicas
Embora a crença generalizada possa ser ao contrário, ser vegetariano pode permitir poupar dinheiro! Existem muitos tipos de vegetais, cereais, frutas, nozes e uma enorme variedade de outros produtos disponíveis no mercado. Bem equilibrados, são facilmente um bom substituto para a carne ou peixe a um preço mais baixo.
Vantagem econômica global
Economicamente, a dieta omnívora tem produzido tragédias. Nas últimas décadas, a produção de grãos - só nos EUA - aumentou em quase 100%. Calcula-se que, actualmente, os rebanhos americanos consumam 85% de todo o milho, cevada, aveia e soja produzidos e não exportados.
Uma extensa porção do país é utilizada para produzir carne de boi - terra que poderia ser usada para cultivar alimentos vegetarianos e alimentar muito mais pessoas do que a carne produzida é capaz.
33% dos grãos produzidos no mundo e 70% dos grãos produzidos nos EUA são para alimentar os animais criados para o consumo humano.
Muitas das nações em desenvolvimento plantam e exportam grãos para alimentar o gado das nações ocidentais, enquanto que sua população interna morre de fome.
A maioria das pessoas concorda com o facto de que desperdiçar comida não é uma atitude correta, nem econômica. Contudo, todo o esforço e energia para produzir cerca de 1 quilograma de proteína de carne desperdiça cerca de 16 quilos de proteínas de grãos. Este desperdício, apenas nos EUA, seria suficiente para cobrir 90% do déficit anual de proteína no mundo inteiro.
Ser vegetariano reduz também os custos com a saúde pública, sendo este um tema para muitos artigos. Como já disse Albert Einstein, "se o mundo inteiro adoptar o vegetarianismo, isso poderá modificar o destino da humanidade", e poderá haver muito menos pessoas subnutridas ou a morrer de fome por todo o mundo.
Alguns números
Se criarmos um boi nos 4 hectares necessários ao seu crescimento, teremos 39 quilos de proteína após quatro anos (o período que ele precisa para estar apto a ser consumido). Se plantarmos arroz nessa mesma área e no mesmo período de tempo, obteremos 1520 quilos de proteína (sem contar os demais nutrientes).
Um adulto com 70 quilos consome cerca de 70 gramas de proteína por dia, o que significa que, se criarmos gado, teremos proteína para cerca de um ano e meio. Se, entretanto, plantarmos arroz, teremos cereal para alimentar este homem durante cerca de 60 anos. Em poucas palavras, significa multiplicar por 40 o número de pessoas que poderiam ser alimentadas em uma mesma área e no mesmo espaço de tempo.
Se as terras cultiváveis empregadas na pastagem fossem utilizadas principalmente para a produção de cereais e legumes, a oferta de comida seria bem maior e a fome, conseqüentemente, menor.
Vegetarianismo: Razões Éticas
O vegetarianismo é, para muitos, uma filosofia de vida em que se privilegia um equilíbrio corpo/mente. É uma forma de se sentir bem com o seu corpo e com o ambiente que o rodeia. Em síntese, uma opção mais humana e mais natural que minimiza o sofrimento dos animais, tirando a superioridade dos Humanos em relação ás outras espécies.
Ao ser vegetariano, estás a priviligiar o respeito pelo outro e pelos animais. Ser vegetariano é, sem dúvida, uma forma mais harmoniosa e compassiva de encarar os animais e o mundo; uma opção mais natural de vida e de estar em sintonia com a natureza e contigo mesmo.
Muitos também privilegiam esta dieta por motivos religiosos, como é o caso dos Hindus, dos jainistas e de outras correntes religiosas.
Vegetarianismo: Razões Filosóficas
O vegan defende que o homem deve viver autonomamente, sem depender de outras espécies animais.
O vegan também é uma filosofia e prática de vida e compaixão. Esse caminho tem sido seguido por algumas pessoas em todos os tempos da história da humanidade.
Só recentemente a palavra vegan (VíGN) foi utilizada para distinguir os vegans dos vegetarianos, e o movimento vegan acabou por se tornar uma sociedade.
A primeira sociedade vegan foi organizada e fundada em 1944, na Inglaterra. Em 1960, H. Jay Dinshah fundou a sociedade vegan americana. Desde então mais de 50 sociedades foram criadas em todo o mundo.
Veganismo é muito mais do que uma questão de dieta. É, sobretudo, uma forma de vida que exclui todas as formas de exploração e crueldade contra o reino animal. Isso implica que um vegan se limite ao uso de apenas produtos derivados do mundo vegetal.
Os vegans escolhem viver de uma forma mais humana e compassiva em relação aos animais e são contra a morte e todo o tipo de exploração animal. Não usam produtos derivados de animais - como a lã, couro, peles, roupas ou móveis, artesanato, sabonetes ou cosméticos que contenham produtos de origem animal, escova feita de cabelos, almofadas de penas, etc.
Os vegans não pescam, não caçam e não aprovam o uso de animais nos circos ou zoológicos, rodeios ou touradas.O veganismo lembra ao homem a sua responsabilidade pelos recursos naturais e faz com que ele procure formas de manter o solo e o reino vegetal saudável, assim como o uso correto dos materiais da terra.
Um vegan não se submete à vacinação ou soro feito de animais, nem tão pouco usa drogas que foram testadas cruelmente neles.
O veganismo é uma filosofia de vida, um caminho que procura a harmonia com o meio ambiente.
O vegan, em geral, também se interessa em ter um excelente padrão físico, emocional, mental e espiritual.
Talvez essa lista de coisas seja difícil de seguir. Ela foi feita para mostrar como é grande e extensa a lista de produtos ou substâncias derivadas de animais que normalmente usamos diariamente ao longo de nossas vidas.
Isso ocorre principalmente porque o mercado de vendas desses produtos só pensa em aumentar os seus lucros, independente da exploração animal ou dos efeitos nefastos que isso traga ao meio ambiente ou à saúde a médio prazo.
O curioso é que já existem muitas alternativas, mais humanas, para qualquer tipo de produtos de origem animal. No entanto, são poucas as empresas que as adotam. Na América do Norte e na Europa, tem crescido o comércio de produtos não derivados de animais, devido ao aumento da consciência do respeito ao meio ambiente e a compaixão por todas as formas de vida.
Embora a dieta vegan não contenha vitamina D, os seus seguidores podem consegui-la com a exposição ao sol das mãos e da face durante quinze minutos, cerca de três vezes por semana. Os outros nutrientes mais difíceis de conseguir seguindo uma dieta sem produtos animais, como a vitamina B12, podem facilmente ser obtidos ingerindo alimentos enriquecidos, levedura de cerveja ou, em último caso, recorrendo a suplementos vitamínicos.
Referências:http://www.centrovegetariano.org/http://www.brasil.terravista.pt/ipanema/2954http://www.vivanaturalmente.pt/ (seção viva vegetariano)http://www.terravista.pt/meco/1518
Vegetarianismo, uma revisão histórica:
Peter SingerUniversidade de Princeton
A perspectiva de que devemos evitar comer carne ou peixe tem raízes filosóficas remotas. Nos Upanishades (c. 1000 a.C.), a doutrina da reencarnação levava à abstenção de carne; Buda ensinava a compaixão por todas as criaturas capazes de ter sensações; os monges budistas não podiam matar animais nem comer carne, a menos que soubessem que o animal não tinha sido morto por sua causa; o jainismo pregava a ahimsa, ou a não-violência em relação a qualquer criatura viva e, portanto, a não ingestão de carne.
Na tradição ocidental, o Génesis sugere que os primeiros seres humanos eram vegetarianos e que a permissão para comer carne só teria sido dada após o dilúvio. A partir daí, o vegetarianismo encontra pouco apoio nas escrituras judia ou cristã, ou islâmicas. O vegetarianismo filosófico, por sua vez, foi mais forte na Grécia e na Roma antigas; foi defendido por Pitágoras, Empédocles, Plutarco, Plotino, Porfírio e, em algumas passagens, Platão. Os pitagóricos abstinham-se de todo o alimento animal e isto se devia, em parte, à crença de que homens e animais partilham a mesma alma e, ao que parece, por considerarem esta dieta mais saudável. Platão partilhava parcialmente estas duas ideias. O ensaio de Plutarco, Sobre Comer Carne, escrito em fins do século I ou início do século II de nossa era, é um argumento detalhado em defesa do vegetarianismo, apoiando-se nas ideias de justiça e tratamento humano dos animais.
O interesse pelo vegetarianismo ressurgiu no século XIX, devido a preocupações com questões de saúde e tratamento humano dos animais. Entre os pensadores vegetarianos notáveis contam-se o poeta Percy Bysshe Shelley, Henry Salt (que escreveu um livro pioneiro na área, intitulado Direitos dos Animais), e George Bernard Shaw, que afirmou ter usado, em suas peças, as ideias que Salt lhe deu a conhecer. Na Alemanha, Arthur Schopenhauer insistia que, por razões éticas, deveríamos tornar-nos vegetarianos, não fosse o facto de o género humano não poder existir sem alimento animal, "no norte"!
A partir dos anos 70, o vegetarianismo ganhou força a partir de três linhas de argumentação: saúde, ecologia e preocupação pelos animais. A primeira baseia-se numa afirmação mais científica que filosófica, e não será discutida aqui. As preocupações ecológicas em relação ao hábito de comer carne surgem da bem documentada ineficiência na criação de animais em larga escala, o que se aplica especialmente à agricultura intensiva, em que o cereal cresce em boa terra e alimenta animais confinados a ambientes fechados ou, no caso do gado, em campos de engorda sobrepovoados. Boa parte do valor nutricional do cereal se perde no processo e esta forma de produção animal consume ainda grandes quantidades de energia. Conseqüentemente, a preocupação pelo problema da fome no mundo, pela preservação da terra e pela conservação de energia fornecem uma base ética para uma dieta vegetariana, ou ao menos uma dieta em que o consumo de carne seja minimizado.
Os argumentos a favor de uma reavaliação do estatuto moral dos animais também têm apoiado o vegetarianismo. Se os animais têm direitos, ou se é apropriado que os seus interesses recebam a mesma consideração que nossos interesses, é fácil ver que há dificuldades em afirmar que estamos autorizados a comer animais não-humanos (mas não, presumivelmente, seres humanos, mesmo se em razão de algum acidente estes se encontrarem em uma condição mental semelhante à dos animais que comemos). Estes argumentos éticos em defesa do vegetarianismo podem basear-se na perspectiva de que violamos os direitos dos animais quando os matamos para nos alimentar ou, em fundamentos mais utilitaristas, segundo os quais criar animais para nos servir de alimento causa-lhes mais sofrimento do que o benefício obtido com o consumo de sua carne.
Peter Singer
Quarta-feira, Agosto 29, 2007
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
Libertação Animal - Peter Singer
Libertação Animal Peter Singer
"No comportamento com os animais, todos os homens são nazis.'' A frase é do escritor judeu Isaac Bashevis Singer, citada no livro Libertação animal. Já nas páginas iniciais, vem a advertência: ''É bem provável que a sua leitura não seja agradável para aqueles que pensam no amor aos animais como se não envolvesse mais que afagar um gato ou alimentar pássaros num parque. Pelo contrário, foi escrito especificamente para aqueles que estão preocupados em acabar com a opressão e a exploração onde quer que ocorram, assumindo que o princípio moral básico da igual consideração de interesses não é, arbitrariamente, restrito a membros de nossa própria espécie.''Partindo da constatação de que a crueldade humana para com os animais se manifesta de formas variadas - no abate para alimentação, em experiências científicas, circos, zoológicos, touradas, rodeios, na caça e na exploração de peles e couro, para citar as mais comuns - Peter Singer atém-se aqui à análise dos dois problemas que julga centrais, por sujeitarem ao sofrimento o maior número de animais: os testes em laboratórios e a produção de alimentos.Recorrendo ao princípio de igualdade que norteou as primeiras lutas pelos direitos das mulheres e dos negros, sublinha que ''a igualdade é uma ideia moral e não a afirmação de um facto.'' Obviamente, animais humanos e não-humanos não são iguais (como, aliás, homens e mulheres também não são), mas devem ser tratados segundo os mesmos princípios éticos. Como sintetizou Jeremy Bentham, a questão sobre os animais não é ''Eles são capazes de raciocinar?'', nem ''São capazes de falar?'', mas sim: ''Eles são capazes de sofrer?''Os testes com animais em laboratórios não representam, na maioria dos casos, benefícios ao homem. Adoptados em áreas como a psicologia, as pesquisas militares e a indústria de produtos que vão desde medicamentos até maquilhagem, velas e canetas, muitos desses testes são realizados ''sem o fator complicador da anestesia.'' Envolvem choques elétricos, lesões, indução a neuroses e depressão, sede, fome, exposição a radiação, congelamento, aquecimento, asfixia, cegueira e muitos outros métodos. Singer pergunta: ''Como podem pessoas que não são sádicas passar a vida a provocar depressões em macacos, escaldando cães até a morte ou viciando gatos em drogas? Como podem tirar a bata branca, lavar as mãos e ir para casa jantar com a família?''É enorme o risco de incompatibilidade entre espécies com resultados de experiencias científicas. Substâncias liberadas após se mostrarem inofensivas aos animais foram muitas vezes catastróficas para os seres humanos. Assim, pondera o filósofo, seria mais útil do ponto de vista da ciência realizar os testes em bebês humanos órfãos, ou pessoas com grave retardamento mental. Se a mera ideia nos choca, admitir os testes com animais só se explica pelo especismo, pela idéia de que os animais existem meramente para servir aos homens, corroborada por algumas das principais correntes filosóficas e religiosas do planeta. Em geral, diz Singer, esses testes são movidos pelo prestígio no meio científico, por prémios, bolsas e publicações, pela disputa mercadológica das indústrias e pelo lobby das empresas que fornecem materiais e cobaias, muito mais do que pelo interesse no bem-estar da humanidade.Segue-se a essa questão outra ainda mais delicada, porque envolve hábitos culturais (e equívocos) milenares: a alimentação. Quando o almoço está em jogo, parece mais confortável fechar os olhos à realidade dos matadouros, aviários industriais e outras unidades de produção intensiva de animais de corte. É preferível pensar em bois, porcos e galinhas crescendo felizes numa quinta idílica, e depois morrendo de forma indolor - o oposto do que ocorre de facto.O exame minucioso de Singer revela-nos que os aviários são superpovoadas a ponto de uma galinha passar sua existência sem conseguir abrir as asas, num espaço equivalente a uma folha de papel. Os animais criados para o abate quase sempre vivem e morrem miseravelmente. O caso extremo é o do vitelo, mantido confinado e anêmico num espaço mínimo, sem estímulo visual ou convívio com sua espécie, apenas para satisfazer ao paladar de alguns. A indústria de laticínios e a produção de ovos são molas da mesma engrenagem, e a pesca intensiva não envolve dilemas menos significativos, ameaçando perigosamente o equilíbrio frágil da ecologia oceânica.Para Singer, como para um número crescente de activistas, a adopção de uma dieta vegetariana que exclua qualquer produto de origem animal (o veganismo) respeita não apenas um princípio ético, mas a consciência de que a terra utilizada para alimentar um animal de corte serviria ao cultivo de uma quantidade muito maior de proteína vegetal. Francis Moore Lappé, autora de Dieta para um pequeno planeta, diz que deveríamos olhar para um bife como para um Cadillac. A fome mundial está diretamente vinculada à dieta que escolhemos. Além disso, escreve Singer, ''florestas e animais criados para gerar carne competem pela mesma terra. (...) Estamos, literalmente, a brincar com o futuro do nosso planeta - para benefício dos hambúrgueres.'' Propõe a adoção do veganismo, o consumo consciente de produtos não testados em animais e a opção por artigos que não usem couro, peles ou lã como formas efetivas de começar a pôr um fim a essa tirania milenar. Para muitos, pode parecer radicalismo. Ao ler Singer, porém, não restam dúvidas de que é o mínimo que nos cabe fazer.
"No comportamento com os animais, todos os homens são nazis.'' A frase é do escritor judeu Isaac Bashevis Singer, citada no livro Libertação animal. Já nas páginas iniciais, vem a advertência: ''É bem provável que a sua leitura não seja agradável para aqueles que pensam no amor aos animais como se não envolvesse mais que afagar um gato ou alimentar pássaros num parque. Pelo contrário, foi escrito especificamente para aqueles que estão preocupados em acabar com a opressão e a exploração onde quer que ocorram, assumindo que o princípio moral básico da igual consideração de interesses não é, arbitrariamente, restrito a membros de nossa própria espécie.''Partindo da constatação de que a crueldade humana para com os animais se manifesta de formas variadas - no abate para alimentação, em experiências científicas, circos, zoológicos, touradas, rodeios, na caça e na exploração de peles e couro, para citar as mais comuns - Peter Singer atém-se aqui à análise dos dois problemas que julga centrais, por sujeitarem ao sofrimento o maior número de animais: os testes em laboratórios e a produção de alimentos.Recorrendo ao princípio de igualdade que norteou as primeiras lutas pelos direitos das mulheres e dos negros, sublinha que ''a igualdade é uma ideia moral e não a afirmação de um facto.'' Obviamente, animais humanos e não-humanos não são iguais (como, aliás, homens e mulheres também não são), mas devem ser tratados segundo os mesmos princípios éticos. Como sintetizou Jeremy Bentham, a questão sobre os animais não é ''Eles são capazes de raciocinar?'', nem ''São capazes de falar?'', mas sim: ''Eles são capazes de sofrer?''Os testes com animais em laboratórios não representam, na maioria dos casos, benefícios ao homem. Adoptados em áreas como a psicologia, as pesquisas militares e a indústria de produtos que vão desde medicamentos até maquilhagem, velas e canetas, muitos desses testes são realizados ''sem o fator complicador da anestesia.'' Envolvem choques elétricos, lesões, indução a neuroses e depressão, sede, fome, exposição a radiação, congelamento, aquecimento, asfixia, cegueira e muitos outros métodos. Singer pergunta: ''Como podem pessoas que não são sádicas passar a vida a provocar depressões em macacos, escaldando cães até a morte ou viciando gatos em drogas? Como podem tirar a bata branca, lavar as mãos e ir para casa jantar com a família?''É enorme o risco de incompatibilidade entre espécies com resultados de experiencias científicas. Substâncias liberadas após se mostrarem inofensivas aos animais foram muitas vezes catastróficas para os seres humanos. Assim, pondera o filósofo, seria mais útil do ponto de vista da ciência realizar os testes em bebês humanos órfãos, ou pessoas com grave retardamento mental. Se a mera ideia nos choca, admitir os testes com animais só se explica pelo especismo, pela idéia de que os animais existem meramente para servir aos homens, corroborada por algumas das principais correntes filosóficas e religiosas do planeta. Em geral, diz Singer, esses testes são movidos pelo prestígio no meio científico, por prémios, bolsas e publicações, pela disputa mercadológica das indústrias e pelo lobby das empresas que fornecem materiais e cobaias, muito mais do que pelo interesse no bem-estar da humanidade.Segue-se a essa questão outra ainda mais delicada, porque envolve hábitos culturais (e equívocos) milenares: a alimentação. Quando o almoço está em jogo, parece mais confortável fechar os olhos à realidade dos matadouros, aviários industriais e outras unidades de produção intensiva de animais de corte. É preferível pensar em bois, porcos e galinhas crescendo felizes numa quinta idílica, e depois morrendo de forma indolor - o oposto do que ocorre de facto.O exame minucioso de Singer revela-nos que os aviários são superpovoadas a ponto de uma galinha passar sua existência sem conseguir abrir as asas, num espaço equivalente a uma folha de papel. Os animais criados para o abate quase sempre vivem e morrem miseravelmente. O caso extremo é o do vitelo, mantido confinado e anêmico num espaço mínimo, sem estímulo visual ou convívio com sua espécie, apenas para satisfazer ao paladar de alguns. A indústria de laticínios e a produção de ovos são molas da mesma engrenagem, e a pesca intensiva não envolve dilemas menos significativos, ameaçando perigosamente o equilíbrio frágil da ecologia oceânica.Para Singer, como para um número crescente de activistas, a adopção de uma dieta vegetariana que exclua qualquer produto de origem animal (o veganismo) respeita não apenas um princípio ético, mas a consciência de que a terra utilizada para alimentar um animal de corte serviria ao cultivo de uma quantidade muito maior de proteína vegetal. Francis Moore Lappé, autora de Dieta para um pequeno planeta, diz que deveríamos olhar para um bife como para um Cadillac. A fome mundial está diretamente vinculada à dieta que escolhemos. Além disso, escreve Singer, ''florestas e animais criados para gerar carne competem pela mesma terra. (...) Estamos, literalmente, a brincar com o futuro do nosso planeta - para benefício dos hambúrgueres.'' Propõe a adoção do veganismo, o consumo consciente de produtos não testados em animais e a opção por artigos que não usem couro, peles ou lã como formas efetivas de começar a pôr um fim a essa tirania milenar. Para muitos, pode parecer radicalismo. Ao ler Singer, porém, não restam dúvidas de que é o mínimo que nos cabe fazer.
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