Libertação Animal Peter Singer
"No comportamento com os animais, todos os homens são nazis.'' A frase é do escritor judeu Isaac Bashevis Singer, citada no livro Libertação animal. Já nas páginas iniciais, vem a advertência: ''É bem provável que a sua leitura não seja agradável para aqueles que pensam no amor aos animais como se não envolvesse mais que afagar um gato ou alimentar pássaros num parque. Pelo contrário, foi escrito especificamente para aqueles que estão preocupados em acabar com a opressão e a exploração onde quer que ocorram, assumindo que o princípio moral básico da igual consideração de interesses não é, arbitrariamente, restrito a membros de nossa própria espécie.''Partindo da constatação de que a crueldade humana para com os animais se manifesta de formas variadas - no abate para alimentação, em experiências científicas, circos, zoológicos, touradas, rodeios, na caça e na exploração de peles e couro, para citar as mais comuns - Peter Singer atém-se aqui à análise dos dois problemas que julga centrais, por sujeitarem ao sofrimento o maior número de animais: os testes em laboratórios e a produção de alimentos.Recorrendo ao princípio de igualdade que norteou as primeiras lutas pelos direitos das mulheres e dos negros, sublinha que ''a igualdade é uma ideia moral e não a afirmação de um facto.'' Obviamente, animais humanos e não-humanos não são iguais (como, aliás, homens e mulheres também não são), mas devem ser tratados segundo os mesmos princípios éticos. Como sintetizou Jeremy Bentham, a questão sobre os animais não é ''Eles são capazes de raciocinar?'', nem ''São capazes de falar?'', mas sim: ''Eles são capazes de sofrer?''Os testes com animais em laboratórios não representam, na maioria dos casos, benefícios ao homem. Adoptados em áreas como a psicologia, as pesquisas militares e a indústria de produtos que vão desde medicamentos até maquilhagem, velas e canetas, muitos desses testes são realizados ''sem o fator complicador da anestesia.'' Envolvem choques elétricos, lesões, indução a neuroses e depressão, sede, fome, exposição a radiação, congelamento, aquecimento, asfixia, cegueira e muitos outros métodos. Singer pergunta: ''Como podem pessoas que não são sádicas passar a vida a provocar depressões em macacos, escaldando cães até a morte ou viciando gatos em drogas? Como podem tirar a bata branca, lavar as mãos e ir para casa jantar com a família?''É enorme o risco de incompatibilidade entre espécies com resultados de experiencias científicas. Substâncias liberadas após se mostrarem inofensivas aos animais foram muitas vezes catastróficas para os seres humanos. Assim, pondera o filósofo, seria mais útil do ponto de vista da ciência realizar os testes em bebês humanos órfãos, ou pessoas com grave retardamento mental. Se a mera ideia nos choca, admitir os testes com animais só se explica pelo especismo, pela idéia de que os animais existem meramente para servir aos homens, corroborada por algumas das principais correntes filosóficas e religiosas do planeta. Em geral, diz Singer, esses testes são movidos pelo prestígio no meio científico, por prémios, bolsas e publicações, pela disputa mercadológica das indústrias e pelo lobby das empresas que fornecem materiais e cobaias, muito mais do que pelo interesse no bem-estar da humanidade.Segue-se a essa questão outra ainda mais delicada, porque envolve hábitos culturais (e equívocos) milenares: a alimentação. Quando o almoço está em jogo, parece mais confortável fechar os olhos à realidade dos matadouros, aviários industriais e outras unidades de produção intensiva de animais de corte. É preferível pensar em bois, porcos e galinhas crescendo felizes numa quinta idílica, e depois morrendo de forma indolor - o oposto do que ocorre de facto.O exame minucioso de Singer revela-nos que os aviários são superpovoadas a ponto de uma galinha passar sua existência sem conseguir abrir as asas, num espaço equivalente a uma folha de papel. Os animais criados para o abate quase sempre vivem e morrem miseravelmente. O caso extremo é o do vitelo, mantido confinado e anêmico num espaço mínimo, sem estímulo visual ou convívio com sua espécie, apenas para satisfazer ao paladar de alguns. A indústria de laticínios e a produção de ovos são molas da mesma engrenagem, e a pesca intensiva não envolve dilemas menos significativos, ameaçando perigosamente o equilíbrio frágil da ecologia oceânica.Para Singer, como para um número crescente de activistas, a adopção de uma dieta vegetariana que exclua qualquer produto de origem animal (o veganismo) respeita não apenas um princípio ético, mas a consciência de que a terra utilizada para alimentar um animal de corte serviria ao cultivo de uma quantidade muito maior de proteína vegetal. Francis Moore Lappé, autora de Dieta para um pequeno planeta, diz que deveríamos olhar para um bife como para um Cadillac. A fome mundial está diretamente vinculada à dieta que escolhemos. Além disso, escreve Singer, ''florestas e animais criados para gerar carne competem pela mesma terra. (...) Estamos, literalmente, a brincar com o futuro do nosso planeta - para benefício dos hambúrgueres.'' Propõe a adoção do veganismo, o consumo consciente de produtos não testados em animais e a opção por artigos que não usem couro, peles ou lã como formas efetivas de começar a pôr um fim a essa tirania milenar. Para muitos, pode parecer radicalismo. Ao ler Singer, porém, não restam dúvidas de que é o mínimo que nos cabe fazer.
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
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